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Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • O eu

    Publicado em Aug 23, 2014

    O eu é um universo sem fronteiras, de infinitos segredos, mistérios, muros, angustias, aflições, egoísmos, invejas, sonhos, amizade e amor.

    Através do eu se viaja em pensamentos insondáveis, que as vezes se revelam em atos e em outras ocasiões em omissões. Quando o medo habita o eu, o fracasso torna-se iminente, afastando a coragem.

    Quando os muros habitam o eu, o perdão é relegado, o coração fica frágil, sem espaço para a solidariedade. Quando a tentação se faz presente, o eu se enche de pecados, que se multiplicam, com traições e corrupções que se tornam visíveis.

    Quando a inveja se faz presente, os fardos se elevam de peso. Quantos pântanos e desertos, encontros e desencontros, esquinas da escuridão e da fé, habitam o eu?. Nele residem também os mistérios dos sonhos, das visões e das sombras. Já maldade impõe o sofrimento. No eu ainda encontramos o pavilhão do egoísmo, além de muitos submundos e recantos da marginalidade.

    O eu às vezes, infelizmente, exterioriza-se com o olhar gordo de latrocidas, corruptos e déspotas. Quando assume esse instinto, sem dó e pena, trucida, violenta e rouba outras existências. Revela-se monstro, que enjaulado ou deitado numa tumba, castiga o corpo e penitencia o espírito.

    O universo do eu possui a também uma avenida intitulada de receio, onde caminha-se com um passo para a frente e dois para trás. É a desconfiança que multiplica a insegurança e afasta a tranqüilidade. É o temor que aprisiona o bem e deixa livre os fora da lei.

    Mas na terra do eu também existe um rio chamado perseverança, que rompe desfiladeiros e nos braços da correnteza vence léguas e mais léguas, para no final abraçar o mar do amor.

    No eu os segredos são tesouros guardados a sete chaves, alguns provocam a barragem das lágrimas, umas tristes e outras filhas da alegria. No reino do eu, o amor é o rei. Com suas regras administra o existir, ora em consonância com a razão, ora atropelando a normalidade.

    O amor é quem comanda. Quando ausente, o eu fica sem norte. Quando presente, correspondido ou não, ele se ocupa, luta e sonha. Mas todo reinado tem sua rainha. No do eu, ela se chama solidariedade, dama que equilibra o âmago e promove a beleza divina no existir, aproximando o eu de Deus, no efetivo espontâneo exercício das palavras e das ações em favor dos nossos semelhantes.

    O eu é poético, em soneto externa sua visão diferenciada sobre o existir. O material pouco importa, pois poeta é um viajante da nave ilusão, de vôos pelos sonhos inimagináveis. Filho da lua e do violão. O eu tem enigmas, tantos quantos guardam as profundezas oceânicas. O que seria do homem sem o eu?

    Onaldo Queiroga

    onaldoqueiroga@oi.com.br


  • A super Lua; Por Onaldo Queiroga

    Publicado em Aug 18, 2014

    Era dia onze de agosto de 2014, eu vinha do sertão em direção a nossa Capital João Pessoa. Era início de noite, com meu veículo, eu trafegava pela BR 230, na verdade havia acabado de sair de Campina Grande, quando de repente uma imensa Lua começou a se levantar no céu. Amarelada, foi surgindo no distante horizonte. Era como se Deus começasse a descortinar a escura noite, abrindo espaço para o desfile da Lua.

    Reduzi a velocidade, pois assim teria condições de apreciar aquela superlua, como foi batizada a Lua cheia daquela noite. Um fenômeno que ocorre em decorrência de uma coincidência consistente no fato do período de Lua cheia acontecer justamente no mesmo período em que ela atinge o perigeu, ou seja, quando ela encontra-se na menor distância da terra. Por isso também é conhecida como Lua do Perigeu. A Lua já encantadora, mas naquele dia ela estava extaordinariamente bela.

    Continuei a guiar meu carro, agora bem devargarinho para contemplar aquele espetáculo. Quando começou a surgir no céu, era como se a Lua estivesse colocando os seus olhos claros para anunciar à escuridão que a noite seria sua inteiramente. Lua da ampla claridade, dos violinos, violões e seus seresteiros.

    Dos poetas, dos enamorados, dos reflexos nas lâminas d'águas, dos flashes das máquinas fotográficas e das lentes das filmadoras. Aquela Lua não era só de Perigeu, era de todos nós, pois Deus permitiu esse momento aos nossos pobres olhos mortais, acredita que para demonstrar ao homem que devemos ser humilde, pois como bem disse um dia Bob Marley: "....até o sol com toda sua grandeza se põe e deixa a lua brilhar".

    E naquela noite ela brilhou como nunca. Ela subiu, subiu, subiu e cada vez ficou maior e mais linda. Durante todo o meu percurso a natureza postou um cenário inigualável. A Lua, então, chegou ao telhado do céu. Seu inicialmente amarelado, deu lugar ao prateado. Seu brilho refletia sobre as águas do mar, dos rios, açudes e até de um pequeno caco de vidro jogado sobre o leito do asfalto. As sombras não pareceram escuras naquela noite, não porque a minha Lua permaneceu por horas e horas iluminando toda a terra.

    Mark Twain acredita que "cada um de nós é uma lua e tem um lado escura que nunca mostra a ninguém". Mas naquela noite tão imensa e luminoso se apresentou, que certamente não houve espaço para o escuro lado. Buda tem razão, "três coisas não podem ser escondidos por muito tempo: o sol, a lua e a verdade".Pretendia fotografá-la, mas não tive condições. Mas ela ficará guardada para sempre na minha mente e na minha alma. Que venham outras Luas Perigeu, o mundo precisa de luz!

    Onaldo Queiroga

    onaldoqueiroga@oi.com.br


  • Miséria Cultural; Por Onaldo Queiroga

    Publicado em Aug 8, 2014

    Os Titãs poeticamente afirmam: “miséria é miséria, em qualquer canto”. Já João Cabral de Mello Neto também mostrou ao mundo em “Morte e Vida Severina” que há miséria por onde você andar.

    Nossos olhos estão acostumados a enxergar uma miséria decorrente da vida vivida por habitantes das favelas, das palafitas; dos sertões nordestinos em tempo de seca; dos bolsões de famintos da Nigéria e da Angola. A Miséria é sinônima da fome e da sede de beber água. Se o nosso olhar correr o mundo encontrará a miséria estampada por todo canto.

    Em quantos recantos desse mundo a miséria não se apresenta sob manto do medo. São povos reféns de homens-bombas que espalham o terror, transformando a existência num campo de mortos e mutilados.

    Se nosso olhar visitar a Síria, Iraque, Palestina, Israel e Ucrânia, por exemplo, encontrará a miséria em carne viva, insculpida no rosto de um território devastado pela inconsciência de poderosos mundiais.

    A miséria às vezes emerge por ações da natureza, muitas vezes reagindo aos atos insanos do homem. O Katrina rompeu todas as barreiras de proteção de Nova Orleans, nos Estados Unidos da América, os pobres, principalmente os negros, ficaram entregues à própria sorte.

    No rosto de cada um deles, surgiu o flagelo da miséria, na ocasião vestida do desespero, desamparo, medo, fome, sede, abandono e dor. Em tempos de guerra, a miséria abraça impiedosamente os refugiados, povos que, sem destino, passam por privações e submissões incomensuráveis.

    Há tempo que ela existe. Mas, há um tipo de miséria recente que nos chama atenção. Trata-se da miséria cultural. Não é à toa que dificilmente encontramos músicas com uma boa melodia e rica em letra. A poesia parece que vem se empobrecendo de forma que algumas já vestem a roupa suja, rasgada e fedorenta da miséria. A mídia abre espaço cada vez mais para os miseráveis do imaginário e da cultura.

    A riqueza anteriormente encontrada em músicas compostas, por exemplo, por Adelino Moreira, Herivelto Martins, Capiba, Luiz Gonzaga, Pinto do Acordeom e Zé Ramalho, por exemplo, foi substituída por músicas que nada trazem de ensinamentos para a nossa vida; não falam de amor, mas, sim de prostituição; não enaltecem a beleza da mulher, mas, sim cantam pejorativamente seu corpo; não decantam a bela paisagem das praias, da lua e das estrelas, mas só as orgias mundanas.

    Isso coloca em risco a nossa cultura. As gerações futuras poderão desconhecer a poesia e, assim, não saberão soletrar sequer as palavras paz e amor. Repensemos tudo isso, antes que seja tarde! Só assim daremos adeus a essa outra espécie de miséria.

    Onaldo Queiroga

    onaldoqueiroga@oi.com.br