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Jerdivan Nóbrega

Coluna Pombal por Jerdivan Nóbrega

Jerdivan Nóbrega é Historiador e escritor. CONTATO: jerdivan@gmail.com



  • "Cem anos de Atêncio Bezerra Wanderley"

    Publicado em Oct 1, 2013

    Doutor Atêncio Bezerra Wanderley nasceu no sítio Arruda, na época município de Pombal, hoje pertencente à cidade de Paulista, no dia 10 de janeiro de 1913 era filho do Cel. Josué Bezerra de Sousa e de dona Esmerina Bezerra Wanderley.

    Teve os primeiros ensinamentos com o seu pai e mestre, que por sua vez tinha nível de instrução apenas até o primário incompleto. Nesta fase o aprendizado se restringia à leitura, exercícios de escrita e cálculos aritméticos básicos.

    Autodidata que era, passou u a estudar sozinho, aprofundando-se nos livros de Aritmética, Álgebra, Geometria, História do Brasil, Geografia, Ciências Naturais, Gramática e francês, a língua estrangeira mais estudada na época. Também aprendeu a lê e falar com fluência o Latim.

    Do sítio Arruda deslocou-se para Campina Grande onde se matriculou no Instituto Pedagógico, hoje Colégio Alfredo Dantas, ali permanecendo por quatro anos, de onde saiu com o Curso Comercial incompleto.

    De lá, no ano de 1935, seguiu para Recife, matriculando-se no Colégio Salesiano onde iniciou e concluiu o Curso Ginasial, transferindo-se depois para o Ginásio Pernambucano, onde fez o Curso Secundário o, atual segundo grau.

    Após o concurso vestibular ingressou na Faculdade de Medicina do Recife, hoje pertencente à Universidade Federal de Pernambuco. Concluiu o Curso Médico a 15 de dezembro de 1945, destacando-se como um dos melhores alunos da sua turma.

    Em 1946, regressou à Pomba onde instalou um consultório médico. Clinicava na cidade e nos sítios para onde se deslocava a cavalo.

    Em 29 de novembro de 1947, casar-se com e com D. Cacilda Medeiros Wanderley. Do casamento nasceram os filhos Marcus Vinicius, Berta Letícia, Alba Rejane e Ana Valéria

    Seus atendimentos médicos compreenderam as Unidade Sanitária Estadual , o Posto Médico de Puericultura L.B.A e a antiga Cooperativa do D.N.E.R. No Hospital e Maternidade Sinhá Carneiro Dr. Atêncio trabalhou durante muitos anos, gratuitamente, em razão da natureza filantrópica da Instituição.

    Foi ele o responsável pela instalação, no Sinhá Carneiro, de um modesto laboratório de análises e um serviço de eletrocardiografia, o primeiro do sertão. Antes existia na cidade de Campina Grande.

    Trabalhou ainda Serviço de Assistência Médica da Previdência Social em Sousa – PB e no Hospital Alcides Carneiro em Campina Grande ¸PB.

    Com muita justiça, a Academia Paraibana de Medicina o fez um dos seus membros integrantes. Ocupou a cadeira de Chateaubriand Bandeira de Melo, Médico, Benfeitor e Político, de São João do Cariri, na referida Academia.

    Como professor foi um mestre por excelência. Ajudou o seu pai a fundar o Colégio "Josué Bezerra”, que por muitos anos educou e formou a juventude pombalense,

    Como político foi consagrado com três vitórias eleitorais, uma de Prefeito Municipal (1969 a 1973) e duas de Deputado Estadual (1979 a 1983 e 1983 a 1987) , chegando a ser Vice-Presidente da Assembléia Legislativa da Paraíba, mantendo sempre um desempenho seguro e equilibrado.

    Assumiu a Prefeitura Municipal de Pombal, a 31 de janeiro de 1969, em plena vigência do Ato Institucional N° 5, que levou o pânico a todos quantos exerciam mandatos eletivos. Contudo, sua integridade moral lhe dava respaldo para administrar sem medo, ao ponto figurar na galeria dos melhores admiradores da nossa cidade.

    Dr. Atencio Bezerra Wandeley faleceu em São Paulo, no Hospital da beneficência Portuguesa, no dia 14 de agosto de 1992 e foi sepultado em Pombal, a 16 de agosto 1992.


  • "A Grande fábrica fechou para sempre"

    Publicado em Dec 6, 2012

    Outubro de 1977

    A sirene da Brasil Oiticica alarmou às 17:00 horas... Era o alarme de saída.

    —Eu bem que avisei que não tocassem a sirene na saída.

    Os catadores de oiticica, mamona e castanha se aglomeraram na porta da fábrica para entregar a suas colheitas, mas não mais havia ali quem ás comprasse.

    — Eu bem que avisei que a Brasil Oiticica não tocaria às 7:00 horas da manhã, para o retorno dos operários.

    Com o fechamento da fábrica sem que os políticos movessem uma palha, a cidade amanheceu mais pobre. Os seus operários arrumaram suas malas e foram morrer no sul do país. Centenas de “Maringás” deixaram para trás as viúvas e os órfãos do descaso e da miséria e foram tentar a sorte em São Paulo, numa triste e silenciosa partida ao som da sanfona branca de Luiz Gonzaga.

    Eu nunca pensei que a velha chaminé, que tanto nos fez tossir ao expelir a sua fumaça preta, nos faria tanta falta.

    —Como Zé de Bú e Zé da Viúva e tantos outros vão dar de comer aos seus filhos?

    A Velha fábrica vai se transformando num imenso cemitério onde famílias inteiras sepultaram suas últimas esperanças. A chaminé de tijolos que sempre representou a industrialização, agora mais parece um dedo em riste para os políticos que a deixaram morrer, se transformando num imenso cemitério de sucatas.

    A cidade Pombal, que já foi considerada a maior produtora de oiticica do Nordeste vê as sementes redentoras daquele fruto caírem ao chão e apodrecerem como se fossem pérolas jogadas aos porcos. Os silos, onde outrora era armazenado o óleo e a esperança do nosso povo, refletem prateada a luz do sol que ofusca a visão dos que não querem enxergar a falta que aquela fábrica nos faz.

    A sirene que nos chamava para trabalhar não mais se rasga em estridentes e angustiantes gritos; o seu silencio é uma forma que ela encontrou para torturar aqueles que acordam às sete da manhã sem ter aonde ir trabalhar, de lembrar às onze da tarde que é hora do almoço na casa de trabalhadores desempregados e, ainda toca uma última vez ao entardecer, para que os angustiados desempregados que se embriagam nas muitas ingazeiras na beira do rio, não esqueçam de bater o ponto final das suas vidas, agora tão ociosas.

    Professora Marinete entra na sala à espera dos filhos dos operários para ensiná-los a escrever a palavra esperança. Eles não puderam vir. Seus pais foram procurar trabalho noutras localidades e eles agora têm que cuidar das suas casas.

    —Para onde foram os craques do “Bosa Futebol clube?”

    Às vezes me deparo com “Seu” Inácio, o zelador, fazendo a ronda em volta da velha fábrica, lutando contra o implacável tempo que aos poucos devora aquilo que, como ele diz: “Foi parte da minha vida!”

    Eu acho que no dia que a Brasil Oiticica voltar a apitar chamando seus trabalhadores para processar a amêndoa da Oiticica, o trem Asa Branca aparecerá na curva do rói trazendo um bocado de pombalenses que se encontram perdidos em terras alheias.

    Jerdivan Nobrega de Araújo


  • "Ainda a chaminé da Brasil Oiticica"

    Publicado em Feb 6, 2012

    “Cada um de nós

    compõe a sua história

    Cada ser em si
    Carrega o dom de ser capaz”
    E ser feliz “

    Graças à astúcia, vontade de fazer e a persistência de uns poucos filhos de Pombal, voltando ou saindo da cidade os filhos da terra da Cabocla Maringá vão continuar a contemplar e serem contemplados pela Chaminé de tijolos de 35 metros de altura, que aponta aos céus em súplica pelos homens e mulheres que um dia deram seu sangue e sua juventude por aquela urbe.

    Não conseguira Imaginar um filho da terra que um dia trabalhou na Brasil Oiticica, voltando à cidade e não mais encontrar vestígios daquela que foi a redenção de um povo em certo período da nossa história.

    Aquela chaminé há 50 anos é um pedacinho da história da cidade, ali apontando para o infinito, lembrança para os que viveram ali viveram entre as décadas de 1930 e 1970.

    Nos anos 60 morávamos na Rua de Baixo, passagem obrigatória para quem ia em direção ao rio. Lembro que depois das 17h30minh, ao toque da sirene estridente da Brasil Oiticica que se rasgava em gritos, libertando seus trabalhadores da lida, em poucos minutos eles passavam de frente a minha casa em direção ao rio, com suas caras pretas de fuligem, para lavar cansaço da lida diária. Sinto saudades daquele tempo, de ouvir o apito e das conversas dos operários na entrada e saída daquela fabrica.

    - “Como era verde o meu vale”

    Muitos daqueles operários humildes eram da Rua de Baixo, mas só me recordo de Zé da Viúva, que era nosso vizinho, e hoje mora aqui em João Pessoa.

    Eu também me lembro das nossas algazarras nos galhos das oiticiqueiras, enquanto que os catadores do fruto enchiam latas e mais latas, com as amêndoas. Lembro também dos carros chegando e fazendo filas na Rua João Pessoa, com suas cargas, para abastecer a fábrica. Teve um tempo que eles passaram a processar a castanha de caju. Aproveitávamos as que iam caindo pelo caminho para assar, no quintal de casa.

    Não existia uma família que não dependesse, de certa forma, do dia do pagamento da Brasil Oiticica, que era quando a cidade via a “cor de dinheiro”.

    Trabalhar na Brasil Oiticica era ter credito aberto no comércio.

    Para nós moleques, ajudar a catar as amêndoas da oiticica em troca de uns centavos a fim de garantir o dinheiro da diversão no Parque Maia ou para as matinês no Cine Lux , era de lei.

    O odor dos armazéns que “atravessavam” na compra das amêndoas entorpecia as ruas centrais de Pombal.

    O cheiro forte da fumaça expelida pela majestosa chaminé inundava toda a cidade, mas, ao contrário do que acontece nos dias de hoje, não havia reclamações pela fuligem que devia fazer tanto mal: antes, festejava-se o emprego que, mesmo insalubre que era, colocava o pão na mesa do povo sofrido da minha terra.

    Vejo em meus pensamentos a revoada das andorinhas na torre da Igreja Matriz, que se espantavam ao apito da Sirene, logo nas primeiras horas da manhã.

    Nos últimos anos da década de 1960, nos mudamos da Rua de Baixo para a Rua da Estação, de onde eu passei contemplar outro cenário: O da saída do produto transformado, que era transportado nos grandes vagões tanques dos trens que entravam e saiam pelo portão lateral, tomando rumo ignorado por mim. Os vagões tanques se perdiam das nossas vistas, fazendo manobras na Rua do Guindaste para entrar na Brasil Oiticica.

    Eu sempre achava que ele não ia conseguir passar pelo estreito portão, e se colocar entre a Chaminé e a caldeira, para recolher o óleo quente que ali era fabricado pelos operários retintos da fuligem que era expelida por aquela chaminé de tijolos, que hoje aponta em súplicas para os céus de Pombal pedindo mas um tempo de vida.

    Quando a Brasil Oiticica fechou, muitos filhos de Pombal foram embora da cidade, muitos para nunca mais voltar. São por estes que se pede a manutenção da velha Chaminé.

    É este um resumo do que significou aquela fábrica para a cidade e quê, por isto, precisar que deixemos marcado no tempo um mínimo de vestígios do que foi a Brasil Oiticica para a nossa cidade, e que as gerações futura a tenha como um memorial, seja pela felicidade seja pela aflição do nosso povo.

    Para conhecer e assimilar a história da construção da cultura de um povo deve-se primeiro conhecer a história da própria cultura, saber como se deu essa construção e como foi o processo de evolução e desenvolvimento da mesma. Só assim, pode-se conhecer e entender e querer preservar.

    Conhecendo a história do que foi esta fábrica entenderemos a importância de mantê-la viva na memória, protegê-la e valoriza-la como forma de compreender nossas características, nossa identidade passada para construir a identidade futura.

    Esta luta travada em um campo de batalha tão adverso e desigual, onde se contrapõe o Capital e a cultural, a memória da cidade acaba ganhando importância, não por este caso em si, mas, por despertado em nosso povo a importância histórica de uma cidade que, desde a chegada dos seus conquistadores ou invasores, como prefiro dizer, em 1696, já se vão 316 anos de suor e sangue derramado.

    Já os que se opuseram ou, pior ainda, se calaram quanto ao seu tombamento, a historia lhes cobrará o preço no momento oportuno.

    Jerdivan Nobrega de Araújo