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Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • Eita saudade!

    Publicado em Jul 19, 2014

    Como é rápido o tempo. Parece que foi ontem que nos despedimos de Dominguinhos. Um ano de lembranças e de eternas saudades. É impressionante! Não precisamos ouvir o som de sua sanfona ou a voz que acalmava nosso espírito para sentir sua presença.

    Era mortal, e, como tal, incorria em erros. Mas, o seu jeito de ser, sua simplicidade, sua paciência e sua bondade estava acima de qualquer falha que tenha cometido durante sua passagem por essa vida.

    Dominguinhos era uma nascente de coisas boas. Encontrá-lo era sempre sinônimo de vivenciar momentos de paz e de beber na verdadeira cultura nordestina.

    Homem de poucas palavras, contudo, seu olhar e suas atitudes diziam mais do que qualquer fala. Com a sanfona no peito, era príncipe dos acordes. O som aflorava com uma suavidade inigualável, tanto que todos ficavam silentes, ouvindo a majestade dedilhar a pureza da musicalidade.

    O filho do baião era autodidata. A genialidade fazia com que sua capacidade artística ultrapassasse os umbrais da música regional nordestina. Jamais poderá ser visto como um artista exclusivamente atrelado ao mundo do baião, do forró e do xote.

    Seu instrumento passeava por muitos ritmos, e com uma qualidade que chamava atenção. Quando abria a sanfona, acompanhava e criava músicas como ninguém. Foi assim até o último instante de sua lucidez. Apesar da sua versatilidade, de sua habilidade e de ser um artista reconhecido mundialmente, ele não cansava de render homenagens ao seu pai musical, Luiz "Lua" Gonzaga. Uma demonstração de humildade e reverência ao seu mestre maior.

    Toda estrada que corta o Nordeste, que atravessa o país, tem o rastro das sandálias de Dominguinhos. Por elas, ele viveu sua vida musical itinerante e descobriu que: “Amigos a gente encontra / O mundo não é só aqui / Repare naquela estrada / Que distância nos levará / As coisas que eu tenho aqui / Na certa terei por lá...” Em cada curva dessas veredas ainda ecoam suas canções.

    Quando vejo uma sanfona, logo me vem a recordação. Era dia de 13 de dezembro de 2012, Parque Aza Branca, Exu. Foi naquela noite do centenário do Gonzagão que o vi pela última vez. Chegou com Paulo Wanderley. Olhei para ele, e disse: - “Dominguinhos, todas as vezes que te vejo, você me transmite uma paz enorme”.

    Com um sorriso franco e com uma voz mansa, respondeu: - “Doutor, eu sou apenas um sanfoneiro”. Subiu no palco, abriu a sanfona e cantou com João Silva e Taísa. Ainda o ouço dizendo ao controlador da mesa de som: - “Bote uma besteirinha de sanfona, um tostãozinho só”. Eita saudade! Viva Dominguinhos!

    Onaldo Queiroga

    onaldoqueiroga@oi.com.br


  • Tempo de sol nascente; Por Onaldo Queiroga

    Publicado em Nov 7, 2014

    É tempo do sol nascente. É tempo divino. O astro rei, no ritual diário trás consigo sua energia, sua luz e seu calor. Entrega aos seus súditos a clareza do dia. Diante do seu brilho intenso, a cada amanhecer se renova a esperança e a possibilidade de se escrever o caminhar de nossas vidas.

    Quando o sol nasce, com ele também nascemos mais uma vez para o mundo. É uma renovação diária. Com a luz da manhã vem o som da passarada, como se anunciando sinfonicamente que é hora de levantar. Se a noite é dos encantamentos das estrelas, do som dos violões, da candura dos casais de enamorados, da frieza dos ventos das madrugadas, o dia, por sua vez é do calor da luta, da labuta, dos sons das buzinas, do vai e vem dos carros, das motos e das pessoas, numa frenética movimentação.

    O sol poente, antônimo do sol nascente, representa o crepúsculo, onde o horizonte do azul celestial se despede. O céu se avermelha e um misterioso cenário divide o dia da noite. É o instante da separação de dois mundos, um da claridade, outro de pouca luz, onde se inicia o reino do sono que nos leva aos pesadelos, mas também aos sonhos. O poente indica escuridão, que é prima do medo, das frestas sombrias e da insegurança. Porém, com já dito também poesia que se mistura estrelas, violão e lua.

    No contexto deste ciclo, no amanhã, o sol nascerá novamente. Quem sabe o amanhã em nada mudará nossas vidas. Talvez seja simplesmente um capítulo da mesmice e, assim, o amanhã será igual ao ontem, que foi igual ao hoje. É Bíblico, está no Eclesiastes 1:9: “...nada há de novo neste mundo”. Por isso, não devemos atropelar o tempo, pois como bem diz o poeta Accioly Neto: Se avexe não... / Amanhã pode acontecer tudo / Inclusive nada”.

    Diante desses distintos mundos, vivem seres diversos, inclusive o homem que se intitula eterno, esquecendo que a vida pode ser desfeita num só segundo. E como diz o poeta Beto Brito, em sua canção nossa vida é um sopro: “...Um segundo, é só isso que vivemos / Seu dinheiro não compra esse bem / Pois daqui, não levamos nem sereno / Querer mais pode ser nosso veneno / Quanto mais se adquire, menos tem / Somos filhos da terra e do além / Conquistamos, mas nada temos / Só é nosso aquilo que vivemos / Nesta conta, bom mesmo é ser igual / Em medidas de tempo sideral / Um segundo é só isso que vivemos”.

    Entre um e o outro, sou mais o tempo do sol nascente, pois adoro a luz apesar de amar a lua.

    onaldoqueiroga@oi.com.br


  • Ou é forró, ou não é forró!; Por Onaldo Queiroga

    Publicado em Jun 27, 2014

    O forró merece respeito. Representa a cultura de um povo chamado Nordeste. Não podemos sair por aí dizendo que o som dessas bandas de plástico é forró. A batida é diferente, a mensagem contida nas letras é totalmente diversa do que propõe o forró.

    O ritmo plástico, que agora também vem recebendo o título de estilizado, no palco se apresenta com muitas mulheres semi-nuas e com letras pobres.

    No São João, eu estava no terreiro do forró quando uma banda começou a anunciar no palco: “Amanhã é folga para quem não bicou. Eu quero ver. Levante o copo. Dá uma rodadinha. Só um golim e traga a cachaça, que ela libera. Você tá com medo de pedir um beijo pra ela. Gatinha mamadinha, levante o copo. Dá uma rodadinha. Só um golim”.

    Isso levou uns quatro minutos até que, em seguida, cantou: “É o chefe!”. Patrocina ousadia, e as novinhas se derretem / É o chefe / É o chefe / Considerado, respeitado, e com ele ninguém se mete / É o chefe, é o chefe/ Quando chega na balada, sempre chama atenção / Pelas roupas que ele usa, e a grossura do cordão / Deixa os playboys rasgar, sempre com muita fartura / Whisky com Redbull, a mais perfeita mistura / Trata todos com respeito, isso é já de costume / As novinhas ficam loucas com o cheiro do perfume / Gosta de ostentação e não tem problema algum / As novinhas ficam doidas pra andar de R1.”

    Nessa hora, fogos de artifícios no palco e a multidão enlouquecida, a dançar, beber e repetindo o refrão: É o chefe, é o chefe. Meu Deus! Uma ostentação repassada de forma selvagem e impiedosa para aquele povo, que mais parecia o admirável gado novo do poeta Zé Ramalho.

    As autoridades devem respeitar os festejos juninos, festa de tradição e que não pode ser transformada em micaretas ou mesmo em inóspitos e rudes festivais de música. Como conceber nos palcos do São João, as atrações principais serem figuras do mundo musical do plástico, sertanejo e do axé.

    Nada contra Bel Maques, Victor e Léo, César Menotti e Fabiano, Daniel, Asa de Águia e outros. Mas o fato é que São João é festa do forró, do xote, do xaxado e do baião. Cada um no seu lugar, no período próprio. O povo e os turistas querem ouvir forró!

    Em entrevista, Targino Gondim, foi questionado se o seu forró era o de “pé de serra”. Com um sorriso franco, respondeu: “Não. O meu forró é forró. Por que forró só existe um! Ou é forró, ou não é forró! ... Hoje em dia, nossa juventude, de tanto ouvir, acaba achando mesmo que "nós" fazemos o "pé de serra" e as bandas "fulano-de-tal do forró" é que fazem o forró. O que é isso, gente? Gosto do som de muitas dessas bandas. Mas estão longe do nosso forró! Não estou aqui querendo atacar ninguém, mas responder de uma vez por todas a essa pergunta e chamar a atenção do povo e dos meus companheiros : - O meu forró não é "pé de serra"! É simplesmente forró!”