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Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • NOVA CRÔNICA: "Sertão: Teu sol é minha luz"

    Publicado em Mar 30, 2015

    Quem é filho do sertão sabe das dores, mas também da alegria e satisfação de pisar esse chão tão sagrado. O calor que tudo evapora - diante do fogo intenso dos raios solares, conduz o sofrimento da fome e da sede, mas, também alimenta a fé por dias melhores.

    O sertão é templo do astro rei, que amanhece esquentando aos poucos o dia, e, com sua luz intensa e radiante, espalha clareza e transfigura o verde em cinza, ressecando o pasto transformando-o em chão rachado.

    É terra de mandacaru, juremas, sabiás, concriz e ribaçãs. De açudes e barragens engolidas pelo longo tempo seco, cujo vento quente atravessa cortante as almas de viventes seres, sertanejos altivos. Sertão que, da dureza do dia, ensina a bravura da luta do contínuo viver por uma terra árida e muitas vezes sem sorte.

    Sertão, por outro lado, é ser feliz numa casa simples, lá no pé da serra, ouvindo o som do silêncio, quebrado pelo canto dos pássaros e do vento solidão. É quietude que nos leva a conversar com Deus. É reticência do tempo diante de um céu taciturno. Céu que às vezes acorda temperamental, sacudindo o mundo com seus trovões e anunciando a chuva esperança.

    Sertão é lenha queimando no fogão, esquentando rubacão, piabas e sonhos. É um tamborete encostado na parede, um olhar para a amplidão, uma roda de caboclos a ouvir causos que fazem sorrir a terra e o firmamento. Sertão são veredas empoeiradas, caminhos de vaqueiros numa pega de boi interminável. É aboio dolente, de quem morre sem deixar tostão.

    O sertão é como diz o poeta, um pai que castiga seu filho, sentindo, na verdade, vontade de o embalar. Por isso, é a saudade imprudente do poeta Marcolino, da conversa sem protocolo, de fácil vocabulário, que dispensa calendário, com anotações imaginárias, contando-se mês de trinta e um na palma da mão. Sertão é lua imensa, respingando luz nas casas de arrasto. É noite de céu repleto de estrelas, e no balançar infinito de uma rede, lá da varanda, o olhar varrendo o céu buscar uma que nos empreste seu brilho.

    Sertão, o teu sol é minha luz. Minha vida são tuas estradas. Tuas águas banham e reacendem a peregrinação da existência. Pedaço de mundo cativante, que faz de homens e mulheres seres destemidos e hospitaleiros. Na cadência do destino, sertão, jamais de abandonarei. Teus filhos, ausentes, em pensamentos nunca te esquecem.

    Bem longe, em lágrimas, o tormento das lembranças de sonhos de poder, um dia, revê-lo com um verdejante sorriso. Se é certeza que saudade maltrata, fica o alento de que você nos espera sempre de braços abertos. Para você nunca haverá adeus, pois teu calor nos atrai a um reencontro contínuo, de festa, alegria, fé e paz.


  • "Poeira e medo"

    Publicado em Mar 13, 2015

    Poeira é terra seca, pulverizada, voando pelo ar. Quando esse pó ganha volume e ofusca a nossa visão, então, espalha receio e aflora o medo no coração do homem. Essa poeira insana gera incerteza e efeitos inimagináveis.

    Folheando a história, logo se percebe que poeira foi símbolo de eventos nefastos. Quem não se lembra da poeira que abalou o mundo ao varrer impiedosamente Hiroshima e Nagasaki?

    Poeira atômica, que, em formato de cogumelo, aniquilou, de maneira violenta, estúpida e não menos insana, milhares de inocentes, deixando aos sobreviventes dores profundas, no campo físico, bem como na seara psíquica. Como disse o poeta Vinícius de Moraes, essa poeira radioativa deixou crianças mudas, telepáticas e cegas, além de mulheres — "rotas alteradas", feridas como "rosas cálidas, estúpidas e inválidas."

    A poeira fez com que o medo avançasse no âmago do homem. Em tempos remotos, o pavor vinha da poeira sanguinária das incursões dos exércitos romano e chinês. Em outro momento, da Cavalaria Americana exterminando os índios da região.

    O medo aflorou da poeira levantada pelos tanques de guerra, militarmente invadindo o território inimigo; ou, ainda, da frenética nuvem levada ao ar pelas artilharias aéreas destruindo prédios, montanhas, culturas, esperanças, liberdades e consciências.

    O medo acompanha a Humanidade. A poeira mais recente ocorreu no amanhecer do dia 11 de setembro de 2001. O medo mais uma vez surgiu em meio à poeira, a do terror, implantando grande inquietação no coração do mundo.

    Ao derrubar as Torres Gêmeas do World Trade Center e atingir o Pentágono, o terror não abateu apenas o concreto: abriu a porta de nossas almas e instalou de vez o medo. Desde então, o mundo vive sob intensa sensação de pavor, de um perigo real.

    A ameaça de um novo ataque terrorista transformou a ficção em realidade. Qualquer gesto, olhar ou aceno diferente, logo gera desconfiança, e o medo assume o comando da situação. Alguém já disse que, hoje, existem edifícios enormes e avenidas mais largas, mas, temperamentos menores e pontos de vista mais estreitos?

    Será que não gastamos muito mais dinheiro, multiplicamos nossos bens, desfrutando muito menos da vida, além de reduzirmos nossos valores humanos? Já disseram também que habitamos residências maiores, mas com famílias infinitamente menores. Falamos demasiadamente e amamos pouco, odiando o semelhante de forma devastadora.

    Se hoje há mais compromissos, sobra-nos muito menos tempo para viver. Se há muito mais dinheiro circulando no mundo, inversamente há menos moral.É preciso, sim, conquistar o espaço exterior. É maior ainda, contudo, a necessidade de trabalharmos nosso interior, pois, só assim, estabeleceremos um equilíbrio entre a liberdade e a felicidade.


  • "Cadê o Rei"

    Publicado em Jun 3, 2015

    Luiz Gonzaga andou muito por esse Brasil. Não é a toa que ele costumava cantar: “Minha vida é andar / Por esse país / Pra ver se um dia / Descanso feliz / Guardando as recordações / Das terras onde passei / Andando pelos sertões / E dos amigos que lá deixei ...”

    Foi nessas andanças que ele viveu situações curiosas, algumas até pitorescas. Conversando com Joquinha Gonzaga, sanfoneiro e sobrinho do Gonzagão, ele me contou algumas histórias pra lá de interessantes.

    De uma delas recordo-me bem. Disse-me Joquinha que estava com seu tio em Recife. Era ano de eleição. Luiz possuía muitos amigos políticos, e, quando chegava o tempo de campanha, sempre o requisitavam para uma ajuda eleitoral, que consistia em transformar o Rei do Baião na atração principal dos comícios.

    Às vezes, ele ganhava o dele; outras, não. O mais importante, contudo, era auxiliar o amigo. Assim, estavam todos no hotel quando chegou um deputado amigo.

    Depois de um bom tempo conversando com Gonzaga, ele se despediu e disse para Luiz: " - Espero o senhor amanhã. O comício vai ser grande!". Apertou a mão do Gonzaga, sorriu e foi embora.

    O comício era numa cidade próxima, distante uns cinquenta quilômetros de Recife. No dia seguinte, no entardecer, Gonzaga entrou no carro com Joquinha, o Zabumbeiro e o triangueiro e partiram. O acerto foi para subir no palanque por voltas das nove da noite. Por volta das vinte horas avistaram a cidade. Na entrada, uma ponte.

    Era noite, chovia um pouco e não se observou que havia um desnível do asfalto para a cabeceira da ponte e os pneus dianteiros colidiram com o desnível. A pancada foi forte. Todos foram jogados para frente bruscamente, inclusive, Gonzaga que bateu fortemente a cabeça no parabrisa.

    Reclamando de dor, foi levado para um hospital da cidade, onde foi examinado e medicado, porém, não liberado. O médico o deixou sob observação. Luiz falou: " - Doutor, tenho que cantar num comício!". O médico, replicou: " - Não deixo o senhor sair daqui agora. Só amanhã."

    Enquanto isso, o deputado e seus correligionários esperavam o Rei para cantar. O público já estava inquieto. Discursava o vereador fulano de tal, o prefeito e nada do Rei chegar. Não havia celular, à época. O médico tranquilizou Luiz dizendo que já havia mandado avisar ao deputado sobre o acidente e que ele (Gonzaga) não iria comparecer ao comício. Todos passaram a noite no hospital.

    O comício, uma verdadeira decepção. Um coro só: " - Cadê o Rei?!?!". Cedinho da manhã, Gonzaga deixou o hospital e foi à procura do deputado. Relatou o ocorrido. O amigo, então, disse: " - Gonzaga, não me avisaram nada. O médico que te atendeu e todos daquele hospital são meus adversários políticos." Moral da história: Na política parece que vale tudo mesmo, até enganar o Rei.