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Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • "Porões"

    Publicado em Mar 6, 2015

    Existem lugares que foram criados para guardar ou esconder alguma coisa. São muitos esses lugares, mas há um que chama atenção no roteiro da humanidade. Trata-se do porão.

    Na seara náutica, consiste na parte mais baixa do interior de uma embarcação, onde se acomoda a carga a ser transportada. Também pode ser visualizado, o porão, no português brasileiro, como aquele local compreendido entre o chão e o soalho da casa, destinado também à guarda de objetos daqueles que residem no imóvel.

    Mas, como no início as casas eram montadas com pisos de pranchas de madeira, colocadas em travessas que sempre deixavam espaços vazios entre o soalho e o chão, então, emergiam sons com tons de horror, decorrentes daqueles gemidos do soalho e também gerados pelo ambiente oco do porão.

    Esses aspectos fizeram com que a maldade humana elevasse o porão a um dos locais mais abomináveis da face da terra. O porão, diante disso, foi associado a sinônimo de tortura, de horror, de pânico e de uma espécie de império do medo.

    A história tem registros sinistros de crueldades praticadas nos porões criados pelo homem. No início do Século XXI, quando pensávamos que o homem havia aposentado o porão como ambiente nefasto, afloram diversos casos, onde cidadãos, aparentemente normais, usavam o porão de suas residências para aprisionar, por anos, pessoas que ali viviam sob o silêncio da tortura e do medo. Sequestradas e segregadas, ficaram anos e anos sob o jugo do algoz torturador.

    Geraram filhos, que nasceram do pânico e passaram a sobreviver alimentados pela fobia, temor e pavor. Monstros travestidos de pessoas “normais”, mas, na verdade, tem perfis de psicopatas, que, friamente, se conduziam como trabalhadores e pessoas de bem, um cobertor acima de qualquer suspeita para seus atos criminosos.

    Na antiguidade, as embarcações levaram em seus porões náuticos sentenciados a remar até a morte. Infelizmente, hoje esse porão não fora aposentado para a prática dos desvarios do homem. O Mar Mediterrâneo que o diga. Hoje, é palco de um porão de um novo holocausto, onde milhares de pessoas abandonadas pelos poderosos sucumbem em meio ao terror do sol escaldante, da fome extrema e das furiosas ondas desse mar tortuoso, que os engolem sem piedade.

    Há um porão maior. Um que habita o âmago da humanidade. Não é à toa que Carlos Roberto Sabbi expressa que: “A maldade habita invisível e furtivamente o porão de cada ser humano”. Se alguns homens são ratos de porão, é preciso, então, que eles revisem as veredas do pensar e agir. Levemos para o porão a inveja, o ódio e a soberba. Vivenciemos a fé e o amor.


  • "Oração ao tempo"

    Publicado em May 26, 2015

    Tempo fugaz. Uma locomotiva veloz a nos conduzir. Da janela, olhares absortos a observar cenários diversos, que, tais como flashes, vão ficando contínua e rapidamente para trás.

    Um tempo de caminhantes azoados, de velhos, homens, mulheres e crianças que vem e vão, num transitar sem sonhos, restritos à escravidão da insolente violência e incredulidade, que conduzem uma grande parte da humanidade.

    Tempo de extremos. Uns tem a luxúria como travesseiro; outros a miséria como um imenso colchão de alfinetes. Uma legião foge da fome; outra esnoba o desperdício da fartura. Uns morrem à míngua nas filas do sistema de saúde; outros fenecem nos ambientes requintados da tecnologia e de renomados médicos.

    Tempo Mediterrâneo, de traficantes barcos que conduzem sobre as águas aldeotas que migram, fugindo da miserável fome e da barbárie de conflitos gerados por medíocres homens que fazem da busca pelo poder um caminho para o apocalipse.

    Tempo mediterrâneo, onde transatlânticos navegam sobre as águas levando o luxo para o desfrute de despreocupados turistas que visitam povos históricos, mas hoje atônitos por temerem na imigração um caos a quebrar uma aparente e presente ordem no velho continente.

    Um tempo de armas e drogas a fomentarem a expansão do crime organizado e a promoverem o dilaceramento da família, além do crescimento do caos na sociedade. Um tempo de equívocos, onde há destinação de vultosas verbas para patrocinar marchas da maconha, e, de outro lado, escassos orçamentos visando a abrigar e tratar os miseráveis desprovidos das cracolândias. Tempo insano. Sem amor ao próximo, onde o caminhar turvo e andarilho demonstra a frieza dos escuros becos da vida.

    Tempo demolidor, onde homens poluem e exterminam a natureza. Sem pena e dó, promovem a destruição de rios, mares e florestas, alterando a rota do equilíbrio da criação.

    Tempo desmemoriado, onde homens esquecem que dependem da Santa Natura para manter acesa a chama da vida e da sua própria existência. Tempo sem esperança. Tempo sem fé, onde uma nebulosa nuvem que vagueia pelo céu da humanidade a respingar o sentimento da descrença, instigando a ausência de forças para a reação.

    Tempo nos lembra Eclesiastes 3, Provérbio de Salomão, que nos ensina: Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Por isso, esperamos que estejamos no final desse tempo de tanta incredulidade, violência e desamor. Que se aproxime um tempo de reflexão, amor e construção de um novo mundo. Só há ódio, quando o amor não está presente. Só há guerra, quando a paz está ausente. Deus é amor! Vivamos o Amor!


  • "Nepal"

    Publicado em May 16, 2015

    A natureza é a presença de Deus no planeta Terra. O deslizar das águas de um rio que desce corredeiras buscando o abraço do oceano, ou, mesmo o ouvir do canto dos pássaros, a invadir nosso espírito, amenizando inquietações e fazendo brotar uma sensação de paz, são demonstrações iniludíveis da presença do Criador.

    A Santa Natura é professora paciente com o homem. Fornece à humanidade o alimento de cada dia, embora maltratada pelo próprio ser humano. Mas, mesmo assim, procura mostrar o caminho a ser seguido.

    Contudo, ultimamente, a Mãe Natureza vem demonstrando um grau maior de insatisfação, seja através de tsunamis, terremotos, de furacões, tornados, secas e enchentes. São tragédias naturais que representam respostas às ações de degradação praticadas pelo homem.

    Abril de 2015. A vez do Nepal. Um terremoto de 7,8 sacudiu os Himalaias. Matou mais de oito mil pessoas. Incrivelmente, o fenômeno natural, tamanha sua virulência, reduziu em um metro, numa faixa de terra de oitenta a cem quilômetros, a altura das montanhas, segundo o geólogo americano Richard Briggs, do Serviço Geológico dos Estados Unidos.

    Cientistas também verificaram que o próprio pico do Himalaia também fora reduzido. Mesmo antes do terremoto, existiam alusões sobre a altura do Everest, pois consoante Christian Minet, geólogo do Centro Aeroespacial Alemão, o Everest havia sofrido uma redução de cerca de um metro e meio em sua altura.

    Essa colisão das placas tectônicas Indiana e Eurasiática diminuiu a grandeza do famoso monte, porém, outras áreas se elevaram, algo normal de acordo com os cientistas. Foi o caso da própria capital, Katmandu, e o lado sul das montanhas do Himalaia, que, com o choque das referidas placas, aumentaram de altura.

    Dezoito dias depois, 12 de maio de 2015, quando ainda se contavam as vítimas fatais, acolhiam-se os desabrigados, tratavam os feridos e continuavam com as operações de resgate, o Nepal foi sacudido novamente por outro grande sismo de magnitude de 7.3. A natureza, mais uma vez, avisou ao homem sua insatisfação.

    Além dos milhares de mortos, resolveu demonstrar que é capaz de reduzir até o tamanho do Everest. A Terra está em constante movimentação e acomodação, mas não podemos esquecer que o homem é peça importante nesse processo.Quantos milhões de litros de petróleo são extraídos por dia das profundezas do planeta? Essa extração interfere ou não no aceleramento desses eventos naturais?

    Temos que compreender que nossas ações podem acarretar o fim da humanidade, passando o planeta a ser um mundo sem alma. É possível reverter o quadro que desponta desolador. Antes que seja muito tarde.

    Onaldo Queiroga