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Onaldo Queiroga

Coluna Crônicas por Onaldo Queiroga

Onaldo Queiroga é pombalense - Juiz da 5ª Vara Cível da Capital - Escritor de vários livros. CONTATOS: onaldoqueiroga@oi.com.br



  • Ariano; Por Onaldo Queiroga

    Publicado em Jul 26, 2014

    O cavaleiro descendente do pragal das Altas Beiras, da Nau Catarineta e da Barca Bela, logo após seu nascimento, conheceu o exílio e a viagem.

    No Reino da Acauhan, deu seus primeiros passos. Nas margens de um riacho, num crepúsculo cheio de presságios, assistiu ao único pôr do sol em companhia de seu pai.

    Nos imensos lajedos intercalados por areias repletas de fósseis de um antigo fundo de mar que banhou aquele pedaço esquecido de sertão, uma piranha morta reluzia a luz do inferno em meio ao enigmático ocaso. Na sua visão, um prenúncio confirmado com um tiro traiçoeiro que matou seu pai. Na poesia intitulada “O Reino”, descreveu o sol negro da morte em sua vida:

    “Aqui morava um Rei, quando eu menino / Vestia ouro e castanho gibão / Pedra da sorte sobre o meu destino / Para mim, seu cantar era divino / quando, ao som da viola e do bordão / cantava, com voz rouca, o desatino, o sangue, o riso e as mortes do sertão. / Mas mataram meu pai. Desde esse dia / eu me vi como um cego, sem guia / que se foi para o sol, transfigurado. / Sua Efigie me queima. E sou a presa, / ele a brasa que impele ao fogo, acesa / espada de ouro em pasto ensanguentado”.

    E a vida lhe entregou a estrada. E os ventos levaram-no para Recife. Sob o relógio do céu, que tem o sol-ponteiro com guia, foi ele caminhando pelo tempo até que se fez advogado. Mas, como dizia, era causídico de nenhuma causa. O mesmo tempo lhe entregou o destino da cultura.

    Dramaturgo, escritor e poeta, foi assim que se mostrou ao mundo, notabilizando-se como o maior defensor de sua terra e de seu povo. Não trocava o seu oxente por ok de seu ninguém.

    Escreveu sobre seu reino e contou causos extraídos de suas andanças por seu mundo, Taperoá. Atravessou eras e pisou os caminhos dos cabelos brancos. Indagado se não estava na hora de parar, respondeu:

    “Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver." O autor de “O auto da compadecida”, sempre afirmava: “Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa”.

    Vinte e três de julho, um dia como outro qualquer. Será? Acho que não. As datas amanhecem trazendo consigo a vida ou a morte. Naquele dia, o sol da morte veio como bem dizia sua poesia, "com a luz do sangue".

    Entre o amor e a morte, a vida e o obscuro, o mundo e o terrível, ele costumava dizer: “A morte é uma mulher, uma divindade e ao mesmo tempo terrificante, mas acolhedora e que tem nome, se chama Caetana”. Fica a lembrança das aulas espetáculo segurando o público por horas. Histórias engraçadas, mas que tocavam na ferida. Adeus, Ariano. Até outro dia!

    Onaldo Queiroga

    onaldoqueiroga@oi.com.br


  • Eita saudade!

    Publicado em Jul 19, 2014

    Como é rápido o tempo. Parece que foi ontem que nos despedimos de Dominguinhos. Um ano de lembranças e de eternas saudades. É impressionante! Não precisamos ouvir o som de sua sanfona ou a voz que acalmava nosso espírito para sentir sua presença.

    Era mortal, e, como tal, incorria em erros. Mas, o seu jeito de ser, sua simplicidade, sua paciência e sua bondade estava acima de qualquer falha que tenha cometido durante sua passagem por essa vida.

    Dominguinhos era uma nascente de coisas boas. Encontrá-lo era sempre sinônimo de vivenciar momentos de paz e de beber na verdadeira cultura nordestina.

    Homem de poucas palavras, contudo, seu olhar e suas atitudes diziam mais do que qualquer fala. Com a sanfona no peito, era príncipe dos acordes. O som aflorava com uma suavidade inigualável, tanto que todos ficavam silentes, ouvindo a majestade dedilhar a pureza da musicalidade.

    O filho do baião era autodidata. A genialidade fazia com que sua capacidade artística ultrapassasse os umbrais da música regional nordestina. Jamais poderá ser visto como um artista exclusivamente atrelado ao mundo do baião, do forró e do xote.

    Seu instrumento passeava por muitos ritmos, e com uma qualidade que chamava atenção. Quando abria a sanfona, acompanhava e criava músicas como ninguém. Foi assim até o último instante de sua lucidez. Apesar da sua versatilidade, de sua habilidade e de ser um artista reconhecido mundialmente, ele não cansava de render homenagens ao seu pai musical, Luiz "Lua" Gonzaga. Uma demonstração de humildade e reverência ao seu mestre maior.

    Toda estrada que corta o Nordeste, que atravessa o país, tem o rastro das sandálias de Dominguinhos. Por elas, ele viveu sua vida musical itinerante e descobriu que: “Amigos a gente encontra / O mundo não é só aqui / Repare naquela estrada / Que distância nos levará / As coisas que eu tenho aqui / Na certa terei por lá...” Em cada curva dessas veredas ainda ecoam suas canções.

    Quando vejo uma sanfona, logo me vem a recordação. Era dia de 13 de dezembro de 2012, Parque Aza Branca, Exu. Foi naquela noite do centenário do Gonzagão que o vi pela última vez. Chegou com Paulo Wanderley. Olhei para ele, e disse: - “Dominguinhos, todas as vezes que te vejo, você me transmite uma paz enorme”.

    Com um sorriso franco e com uma voz mansa, respondeu: - “Doutor, eu sou apenas um sanfoneiro”. Subiu no palco, abriu a sanfona e cantou com João Silva e Taísa. Ainda o ouço dizendo ao controlador da mesa de som: - “Bote uma besteirinha de sanfona, um tostãozinho só”. Eita saudade! Viva Dominguinhos!

    Onaldo Queiroga

    onaldoqueiroga@oi.com.br


  • Tempo de sol nascente; Por Onaldo Queiroga

    Publicado em Nov 7, 2014

    É tempo do sol nascente. É tempo divino. O astro rei, no ritual diário trás consigo sua energia, sua luz e seu calor. Entrega aos seus súditos a clareza do dia. Diante do seu brilho intenso, a cada amanhecer se renova a esperança e a possibilidade de se escrever o caminhar de nossas vidas.

    Quando o sol nasce, com ele também nascemos mais uma vez para o mundo. É uma renovação diária. Com a luz da manhã vem o som da passarada, como se anunciando sinfonicamente que é hora de levantar. Se a noite é dos encantamentos das estrelas, do som dos violões, da candura dos casais de enamorados, da frieza dos ventos das madrugadas, o dia, por sua vez é do calor da luta, da labuta, dos sons das buzinas, do vai e vem dos carros, das motos e das pessoas, numa frenética movimentação.

    O sol poente, antônimo do sol nascente, representa o crepúsculo, onde o horizonte do azul celestial se despede. O céu se avermelha e um misterioso cenário divide o dia da noite. É o instante da separação de dois mundos, um da claridade, outro de pouca luz, onde se inicia o reino do sono que nos leva aos pesadelos, mas também aos sonhos. O poente indica escuridão, que é prima do medo, das frestas sombrias e da insegurança. Porém, com já dito também poesia que se mistura estrelas, violão e lua.

    No contexto deste ciclo, no amanhã, o sol nascerá novamente. Quem sabe o amanhã em nada mudará nossas vidas. Talvez seja simplesmente um capítulo da mesmice e, assim, o amanhã será igual ao ontem, que foi igual ao hoje. É Bíblico, está no Eclesiastes 1:9: “...nada há de novo neste mundo”. Por isso, não devemos atropelar o tempo, pois como bem diz o poeta Accioly Neto: Se avexe não... / Amanhã pode acontecer tudo / Inclusive nada”.

    Diante desses distintos mundos, vivem seres diversos, inclusive o homem que se intitula eterno, esquecendo que a vida pode ser desfeita num só segundo. E como diz o poeta Beto Brito, em sua canção nossa vida é um sopro: “...Um segundo, é só isso que vivemos / Seu dinheiro não compra esse bem / Pois daqui, não levamos nem sereno / Querer mais pode ser nosso veneno / Quanto mais se adquire, menos tem / Somos filhos da terra e do além / Conquistamos, mas nada temos / Só é nosso aquilo que vivemos / Nesta conta, bom mesmo é ser igual / Em medidas de tempo sideral / Um segundo é só isso que vivemos”.

    Entre um e o outro, sou mais o tempo do sol nascente, pois adoro a luz apesar de amar a lua.

    onaldoqueiroga@oi.com.br